ELES NÃO LERAM CERBONI…

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Prof. Rodrigo Antonio Chaves da Silva

Contador, da escola do Neopatrimonialismo

 

O objetivo desse artigo, primeiramente, é refutar inteiramente as posições que se embasam em dois objetos a saber, vindas de autores americanos:

  1. A má compreensão do que seja a pesquisa qualitativa, com base nos clássicos de nosso saber, e consequentemente, derrubar as afirmações levianas sobre o que se afirma hoje.
  2. A falsa tese que Cerboni defendia a partida dobrada.

 

A primeira colocação a ser analisada, lamentavelmente, há muito vem sido seguida no Brasil. Se fala dos clássicos da Contabilidade, todavia, não se lê as suas obras, e quando se faz, é de maneira absolutamente recortada ou com ausência de uma interpretação razoável. Ou seja, com extratos falsos, ou até com interpretações confusas.

Já se criticou, inclusive, as traduções nacionais, todavia, quem o fez também, não produziu traduções nem de textos, nem das obras dos clássicos, muito menos fizera interpretações suficientes, prejudicando com isso o patamar na Contabilidade, e seu estudo doutrinário.

No primeiro contexto de avaliação dos clássicos, estamos na pesquisa de abordagem qualitativa do saber.

O homem manifestou o seu conhecimento inicialmente, falando, percebendo, e tentando explicar o seu pensamento, só depois que ele expressou em números os pontos de sua sabedoria.

Os primeiros números por sinal, eram coisas, ou mesmo caracteres, portanto, exprimiam qualidades em suas medições.

Portanto, a qualidade do pensamento veio primeiro, porque as coisas, os fenômenos, e o próprio Deus, são entes, e desta maneira, não são quantificáveis totalmente os seres, mas inicialmente, sabidos no que são, e no que significavam prontamente.

Só depois apareceu o conceito dos números mas como medida isolada. O conceito inicial, pitagórico, dos números, era como se eles fossem coisas, isto é, uma essência e origem dos elementos que podem ser verificados pela experiência. Assim se fez na escola de Pitágoras, concepção está que depois foi alterada pela escola euclidiana. Contudo, no que tange à concepção dos números, e não mesmo à posição original, definitória, e filosófica dos números, como essências e elementos qualitativos.

Mesmo no Brasil, os estudos de cunho qualitativo têm sido colocados de maneira errônea, ESQUECENDO OS CLÁSSICOS, que são os mais importantes.

A pesquisa qualitativa tem que ser entendida em Contabilidade como a análise doutrinária, ou o estudo da hermenêutica dos maiores pensadores, ou os que fizeram parte de uma teoria geral culminada no final do século XX.

Os estudos supostos qualitativos que conhecemos no país, não chegam nem perto disto, aliás, nem citam os pensadores que formaram uma ciência e desenvolveram a filosofia na Contabilidade.

Portanto, os principais autores desse pensamento poderíamos pegar já no século XIX, seriam Nicolas D`Anastasio, Giuseppe Cripa, Giovanni Bonarccini, Giuseppe Baccari, Raymond Coffy, Francesco Marchi, Giuseppe Cerboni, Giovanni Rossi, Fabio Besta, Carlo Ghidiglia, Vincenzo Masi, Gino Zappa, Eugen Schmalenbach, Jean Dumarchey, entre outros mais que são praticamente esquecidos da maioria dos círculos contábeis atuais, com o corte epistemológico da chamada citação de “cinco anos para cá”, destruindo inteiramente as análises sobre os fundamentadores de nossa ciência.

Ainda é pior o que se tem feito na área contábil quando se fala em pesquisa qualitativa, começam a citar autores das ciências sociais como Bordieu, Levebre, Horkheimer, Adhorno, Boaventura dos Santos, entre outros mais que não são contadores. Se fossemos fazer um estudo qualitativo com estes autores em matéria contábil, seria o mesmo que mandar um pintor construir uma casa. Além de descabido, é erro feio de contexto científico. É uma execração do que é o conceito contábil. Quem produz tais afirmações, comete um delírio de interpretação literalmente.

Isso gera os disparates de gente que não entende o que está “dentro” da Contabilidade, há os que querem que ela fique “para fora”, usando autores que não são contadores, misturando o campo de conhecimento profissional, criando uma salada de frutas cítricas sem açúcar, que ninguém consegue digerir, senão a cabeça amalgamada de quem assim o faz.

Os caminhos são graves, com relação ao primeiro objeto, agora em relação ao segundo é muito pior, porque se não se tem conhecimento de causa, não há pois efeito de conhecimento, isto é, as ilações, teses, e sentenças serão absolutamente falsas.

Se não se reconhece o doutrinador Giuseppe Cerboni como um dos maiores doutrinadores da Contabilidade, quanto mais o que ele diz?

Vejamos esta afirmação que Cerboni “tinha uma teoria da partida dobrada”: ela por si é totalmente falsa.

Cerboni a fundo, criou a LOGISMOGRAFIA (Desenho ou gráfico de Registros).

O que aconteceu com a logismografia, é que ela era uma alternativa para o registro dos fatos patrimoniais.

No fundo era uma teoria das contas.

Vejamos o primeiro aspecto a ser observado.

Primeiro, quando a partida dobrada era usada no reino da Itália o balanço não fechava. Isso nos auspícios do século XIX.

Coube a Cerboni, segundo as informações de Masi, conseguir fechar o balanço, porém, com o uso da logismografia.

Era um método de registro direto, sem necessariamente fazer a partida dobrada, mas classificando as contas num quadro de correspondentes, consignados, e proprietários (este, por conta do ativo que estava sobrevalendo ao passivo).

No final se registrava tudo compondo um quadro mais ou menos assim:

+   –                                   +     –                              +     –

CONSIGNADOS        CORRESPONDENTES   PROPRIETÁRIOS

 

Era um método difícil de ser executado, e o balanço se registrava assim, montando a sua estrutura nos três grupos de contas.

Ele substitui a partida dobrada e fecha o balanço da nação com este método, o que foi uma peripécia.

A posição da logismografia além de difícil, era uma tentativa importante de aplicação teórica, e como era o contador do Estado, tinha autoridade a ser respeitada, sendo adotada por quase vinte anos nos estudos das academia de Contabilidade da Itália.

Todavia, quando Besta descontruiu a teoria de Cerboni e a derrubou, torna ele também contador do tesouro de Veneza, logo, devolve não apenas a este Estado, como a toda a Itália, o cariz de escrituração contábil pública por partida dobrada.

Na visita de D`auria a Besta, ele tinha comprovado como este fazia a Contabilidade, substituindo há anos o registro de meras classificações das contas pessoais, para a mesma partida dobrada adequada.

Foi o mesmo método que D“auria produzia no Brasil, fazendo com que a Contabilidade tivesse o seu balanço a nível estatal, e permitindo que a técnica fosse muito bem absorta para as demonstrações contábeis.

Portanto, é falsa a afirmação que Cerboni tinha uma teoria da partida dobrada, o que é correto dizer é que ele tentou, como conseguiu por alguns anos, substituir a partida dobrada pela logismografia, e fazer ao mesmo tempo uma revolução no método, sobretudo ter uma teoria própria de contas.

Os autores americanos que dizem o contrário, e os que embasam-se nestes, cometem erros claros de conhecimento de causa, porque a tese “que ele criara uma teoria da partida dobrada” não procede, ele criou sim uma teoria de contas, e a aplicou no Estado, logo, estas afirmações são contrárias ao que os conteúdos das obras de Cerboni desenvolvera, em suma, eles estão falseando com interpretações esdrúxulas o que está contido na obra do mestre.

Esses são os erros de quem não lê as obras dos autores, ou de quem não leu Cerboni, ao menos no contexto desta tese.

Em suma, eles não leram Cerboni para afirmar isto…