COMENTÁRIOS DOS PRIMEIROS VERSOS DA CARTA DE SÃO PAULO AOS HEBREUS

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Prof. Rodrigo Antonio Chaves da Silva

Congregado Mariano, imortal da Academia Mineira de Ciências Contábeis

 

A eternidade é um dos fenômenos (se é que assim podemos dizer porque é a realidade que vez a realidade temporal, ou que está acima desta realidade como “tempo” de Deus ou idade de Deus), ou estados impreteríveis que um homem pode/deve estudar em sua existência. Aliás, tudo o que existe, depende da eternidade ou do tempo eterno, de uma parte que não muda, que é imutável, e ao mesmo tempo, é absolutamente constante, ou seja, revela os fundamentos para que aquilo que se mova possa existir.

A eternidade só pertence ao SER ETERNO e ao SER SUPREMO, logo, podemos garantir que ela está ligada diretamente à própria idade de Deus.

O termo eternidade tem vários significados, muito utilizado no latim como ab aeternus, ou seja, que “sempre existiu”, por “toda a vida”, “época/era absoluta” ou por “todo o tempo”, como se fosse um tempo que nunca passasse, que tudo ocorresse, que já acontecesse e nunca deixasse de ter duração.

É quase que incompreensível esta realidade para nós reles homens de carnes, mesmo com um eu imortal, não entendemos inteiramente esta posição (nem aos anjos ela é totalmente revelada: veja o caso das visões de Ezequiel, dos querubins de seis asas, e mesmo as de Isaías, é totalmente impossível, mesmo a um anjo criado por Deus em toda a eternidade, entender inteiramente o que é o ser supremo, eles na glória divina enxergam continuamente as obras de Deus, e tentam visualizar o seu rosto com as asas nos olhos, a visão é interminável e inextinguível, não temos noção da grandeza de Deus na sua plenitude, mesmo na vida do céu).

Ao mesmo tempo, o termo ab alio é usado para Deus, ou seja, indica um ser totalmente desligado e absoluto, que não pode deixar de ser o que é, o único ser necessário e fundamental em todas as coisas, presente na oração de Santo Anselmo como aquele o qual necessariamente todas as coisas devem existir pela sua própria existência, o resto, todos os seres, que provém dele, são absolutamente relativos.

Só pode existir um ser necessário, se houver dois seres necessários então deixa de ser ele absoluto, ou mesmo a própria divindade; a eternidade deixar de ser o que é porque teria uma “concorrência” e isso Deus não permitiria de maneira alguma, o próprio conceito de Deus exige esta plenitude.

Mas o termo eterno pode significar algo ligado a Aevum, ou seja, fora do tempo, fora da era, ou melhor dizendo que transcende o tempo.

É um conceito que incute o “marginal”.

Se está fora é porque não está excluído, mas está além, ou seja, superior. É neste sentido que deve ser entendido.

A eternidade não tem tempo, mas não pode ser entendida apenas como presente. Muito menos como constante somente. Embora vulgarmente se diga que a eternidade é. Todavia, ela é mais que isso. Deus entende todo o tempo, portanto, todas as dimensões temporais, não pode ser julgado apenas como presente, senão não saberia o futuro, muito menos teria a condição de lembrar todo o passado. Deus é onisciente. Sobretudo, todavia, se compreende a eternidade como algo “fora” porque está “acima” de todas as realidades temporais.

Na ótica supra, a eternidade é mais que passado, presente, e futuro em graus infinitos, pois, todas as realidades do tempo não passam desapercebidas de Deus.

Neste sentido, é como se significasse uma “era que não era mais”, ou seja, um tempo que ultrapassa o próprio tempo, uma duração além da era, pois, o tempo é nada diante da eternidade.

De tal modo dizemos que na eternidade tudo já passou, porque todas as realidades já aconteceram, acontecem ou acontecerão ao mesmo tempo.

Isso foge da imaginação de um ser humano. De um reles mortal. Grandiosamente.

Esta realidade está nas frases de São Paulo, na carta aos Hebreus, especialmente dos versículos primeiro ao décimo segundo.

A carta de São Paulo é especialmente uma mensagem aos Hebreus. Ao povo judeu tradicional, natural, e genuinamente portador da herança divina. Mas ela está repleta de doutrina, nela ele estabelece o que seria a eternidade na visão da Santíssima Trindade, especialmente, do Pai e do Filho.

Ele primeiro estabelece que a mensagem de Deus durante as eras, pelos profetas, por Moisés, e por outros mensageiros, não se equivale à mensagem de Cristo, tudo teve como foco ao Ungido Eterno, ou seja, tudo foi sombra para Ele. Ele é como se fosse um marcador para o infinito, tudo pode ser considerado como que vem antes e depois Dele. Portanto, ele é o eixo da curva. Tanto no tempo, quanto no início do tempo. Porque no início era o verbo, Ele existia antes do tempo, e Ele quem determina o que vem depois.

É como se durante todo o tempo, o único que realmente seria esperado, era o Cristo, como de fato o é.

Ao mesmo tempo, todo o mundo foi criado para ele, e com ele, sem Ele nada teria sido criado, esta realidade deve ser gritada nos muros.

Tudo foi formado, criado, e feito para Ele.

Nada deixa de passar pelo Logos, e eterno.

O Logos Eterno é a palavra de Deus, o cogito raciocinante de Deus que se formula na eternidade em sua palavra.

Por isso que a palavra de Deus é o Deus mesmo, ou o próprio Deus, pois é inerente à Ele.

Esse pensamento é inexaurível e inextinguível, não se pode entender nem um pouco do que realmente procede.

São Paulo então chama o cristo de Herdeiro Universal de todas as coisas, por este motivo. Se todo o mundo, toda a existência foi feita por Ele, e com Ele, ele é pois o princípio o qual tudo deve ser atraído a Ele, como Ele mesmo dizia: “quando eu subir na cruz atrairei todos a mim”. São Paulo alude a isto dizendo sobre a purificação do pecado. Ora na cruz que a eternidade se ajunta com o mundo, e logo faz todos retornarem e Ele mesmo, ou seja, ao Deus supremo.

O momento em que o Eterno ajunta para si o mundo que Ele mesmo criou é no sacrifício do seu Logos raciocinante encarnado.

Esta realidade é sublime no momento que Aristóteles diz que o princípio volta a ele mesmo, quer dizer que o próprio Logos voltaria a si mesmo, pois, atraindo todos a Ele, e Ele estando sempre com o Pai Eterno, é como se todas as coisas voltassem a ser com Ele e para Ele.

Todavia, essa realidade é difícil de ser entendida, mesmo na teologia.

Ele é o Herdeiro Universal “está sentado à direita da Majestade no mais alto dos céus, tão superior aos anjos quanto excede o deles o nome que herdou” (vs. 3-4).

Deus é inalcançável.

Como dizia São João da Cruz, Deus é inacessível.

Veja bem esta palavra, a distância do Cristo para com os anjos na verdade é infinita, o termo “tão superior aos anjos” quer dizer que nenhum criatura pode se comparar a Ele, pois, está do LADO DE DEUS.

À direita de Deus é um termo, quer dizer que é IGUAL A ELE, ou EQUIPARADO A ELE.

Santa Tereza de Jesus sempre o chamava de DIVINA MAJESTADE, SANTA MAJESTADE, para reverenciar o VERDADEIRO REI DESTE TODOS OS TEMPOS.

Portanto como herdeiro Universal de todas as coisas, do PATRIMÔNIO DE DEUS, Nosso Senhor também é considerado pois dotado de todas as condições de um ser SUPREMO, desde toda a ETERNIDADE, são de São Paulo as palavras antes ditas: “Esplendor da glória (de Deus) e imagem do seu ser, sustenta o universo com o poder de sua palavra. Depois de ter realizado a purificação dos pecados” (v. 3). Aqui claramente está a realidade do SER SUPREMO E DA UNIÃO DO FILHO COM O PAI ETERNO, toda a PALAVRA DE DEUS FOI PROFERIDA POR ELE DESDE TODA A ETERNIDADE, portanto, a sua PALAVRA SUSTENTA TODAS AS COISAS.

Entenda bem, todas as coisas, a nossa vida, a nossa memória, até mesmo as coisas indiretas do homem são feitas e PERMITIDAS POR DEUS. Não conseguimos fazer nada se ELE NÃO O QUISER OU NÃO O PERMITIR. Um homem EM REALIDADE NÃO PODE NADA. Ora, se podemos alguma coisa como morremos sem querer? Ou como vimos ao mundo sem termos a vontade para vir? Não somos donos de nossa vida e não nos sustentamos, tudo depende do LOGOS ETERNO.

Cabe um comentário que o termo substância vem de subsistir, isto é, se manter, logo, a verdadeira substância é a que se mantém por si mesma, isto é, a DIVINA, porém, quando ele diz que toda a sustentação vem Dele, e que todas as coisas subsistem Nele, fala de basicamente três coisas: a primeira é que todas as substâncias tem um grau de sustentação da substância primaria, que a substância mesmo relativa vêm da substância primeira, que para se subsistir é necessário que tenha Deus. Portanto, toda a criação substancial mesmo que temporal, vem da verdadeira substância, de Deus!

Esta realidade é bonita e maravilhosa Deus me sustenta, para eu viver, e para ver o que vejo, Deus deve me sustentar. Isso Lhe deve um constante louvor!

Agora as palavras de Eternidade e sobre o mesmo estado estão mais coerentes nos versos seguintes, vejamos o 5 e o 6: “Tu és meu filho e hoje te gerei”, “Serei seu Pai e ele será meu Filho”, “Ao introduzir seu primogênito na terra diz: “Todos os anos de Deus o adorem”.

Não há dúvidas que estas palavras refletem a eternidade como algo fora do tempo, e infinitamente superior ao passado, presente e futuro, porque usa termos de linguagem como “hoje” e “será”, além de “serei”.

A eternidade não é apenas uma constante, mas um tipo de “tempo” que está superior a toda as realidades do passado, presente e do futuro, senão estes não deveriam e não seriam criados por Deus.

Isso é provado quando Deus diz por meio dos salmos que estão repetidos por São Paulo: “hoje te gerei” (presente), “Tu Senhor no princípio” (passado), “Eu serei seu Pai e ele será meu Filho” (futuro).

Veja que ele coloca o futuro, o passado e o presente como se existissem desde toda a eternidade.

Também quando Deus diz: “Tu és meu filho e hoje te gerei”, este “hoje” é como se fosse um agora desde toda a eternidade.

Na última frase “Eu serei seu Pai e ele será meu Filho” dá a entender que não é uma coisa futura, mas algo que se diz no futuro, porém, DESDE TODA A ETERNIDADE, OU DESDE SEMPRE.

É como se fosse um FUTURO ETERNO, OU UMA ETERNIDADE NA QUAL O FUTURO ESTÁ INFINITAMENTE COLOCADO.

Entendamos bem esta condição: desde sempre no futuro Deus diz “Eu serei” e “Ele será” é um tipo de futuro na eternidade, ou como se a eternidade fosse o futuro para sempre e de modo interminável.

Portanto, há um tipo de passado, presente e futuro na ETERNIDADE, porém, de modo infinito, supremo, e constante.

Além do mais é bom entendermos que é como se Deus entendesse e fizesse parte de todos os tempos, porém, se colocando muito acima deles.

Ele usa o presente “és meu filho”, “hoje te gerei”, o futuro “serei seu Pai e ele será meu Filho” como se estivesse existindo no futuro, todavia, isso é um modo de dizer, hoje é o filho, e no tempo, na encarnação, será então o seu filho, ao mesmo que coloca estas palavras de eternidade, quando faz o filho se encarnar imediatamente os anjos de Deus o adoram, é o que vemos claramente na cena do nascimento de Nosso Senhor em São Lucas.

É um modo de dizer que se foi, ou será, é porque sempre foi ou será. E se hoje existe é porque sempre é. Ou na eternidade sempre o foi.

Temos mais palavras como “O teu trono, ó Deus subsiste para a eternidade”, portanto, para todo o sempre, como cetro de justiça, de paz e de amor, isso quer dizer que para além do tempo, e com um tempo superior ao tempo, que nunca pode acabar, que sempre vai existir, estará o Senhor revelando o seu poder, o seu trono, quer dizer a sua real autoridade, que não pode ser vencida, somente aceita e adorada.

Ele jamais poderá morrer, sempre existirá e nele subsiste todas as coisas, porque Ele é a substância pura ou absoluta, a verdadeira substância, ou como dizia Aristóteles, o verdadeiro ser.

Ainda temos: “Tu, Senhor, no princípio dos tempos fundastes a terra, e o céu são obras de tuas mãos” (vs. 10), veja bem no princípio, no início dos tempos, sempre havia Deus, portanto, Ele quem criou todas as coisas. Portanto, ele criou a própria substância que a todos é desconhecida inteiramente. Não só porque ele é a substância, mas porque ele vêm antes de todas as coisas. É a verdadeira substância, o primeiro princípio. Aquele que realmente subsiste porque vem primeiro.

Mais: “Eles passarão, mas tu permaneces. Todos envelhecerão como uma veste, tu os envolves como uma capa, e serão mudados. Tu, ao contrário és sempre o mesmo e os teus anos não acabarão” (vs. 11-12).

Enxerguemos bem: todos passarão mas Deus continuará, isso é outra figura de linguagem, ou outra afirmação, na verdade, revela que todas as coisas vão deixar de existir um dia, e ele continuará, o fim dos tempos deve ser entendido nesta ótica, como o melhoramento da existência, todavia, abalar o céu e a terra será a última coisa que Deus fará e no nível grandioso de real intervenção.

Os anos de Deus nunca passarão, todos envelhecerão, todos serão mudados, os anos de Deus não passam, é outra forma de dizer que Deus é o mesmo porque está acima do tempo, ou seja, está muito mais alto que toda a realidade, logo, ele é o SER SUPREMO, ou seja, o SER QUE NÃO PRECISA SER MUDADO PORQUE É PERFEITO, SEMPRE SERÁ O MESMO, E NÃO PRECISARÁ DEMUDANÇA OU DE ALTERAÇÃO.

Ou seja, em palavra simples DEUS NUNCA MORRE E NUNCA MORRERÁ, DEUS SEMPRE VAI EXISTIR, E VIDA LONGA A DEUS!!!

A eternidade não muda porque é um grau de perfeição, ou ao menos toda a perfeição que consiste numa DURAÇÃO INFINITA E TOTALMENTE SEMPITERNA.

Nesta condição podemos dizer claramente que o entendimento da eternidade é um dos problemas principais do ser humano, uma realidade religiosa, um fato que deve estar presente em todas as mentes e em todas as memórias.

Aqui tratamos de alguns trechos que exigem mais aprofundamentos, que ultrapassariam um simples artigos, todavia, entendemos que a posição dos primeiros versos da carta de São Paulo aludem claramente ao conceito de eternidade, veja que ele não fala de religião necessariamente, mesmo sendo de uma, mas de uma realidade, de um fato, se é que podemos dizer que resume toda a nossa existência, a duração de Deus, o mundo que não acaba, um tempo acima do tempo, e a realidade imutável a qual está além das eras, mais que presente, passado, ou futuro que compreende inteiramente a posição de tudo o que existe, portanto, o problema que deveria ser estudado sempre pelo ser humano, e observado sempre em todas as condições racionais do homem.

Leiamos muitas vezes este trecho da carta de São Paulo aos Hebreus, a explicação do padroeiro dos escritores e dos doutrinadores revela claramente que a eternidade é a realização do amor eterno entre o Pai e o Filho, e é a própria vida de Deus, uma das características do ser divino e uma das realidades que supre a realidade, que é o mundo imutável.

Vida longa a Deus, e ao Rei supremo desde toda a eternidade, pelos séculos, dos séculos sem fim, amém!