A ELIPSE E OS DEFEITOS DE RACIOCÍNIO

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on telegram

Compartilhe este artigo!

Um dos graus fundamentais do pensamento humano, aliás considerado o maior, é o de Doutor, mas o que seria aquele que possui o doctum? Isto é, o grau máximo de ensinamento, porque domina a capacidade de pensar? O que ele tem que possuir muito bem? Uma coisa básica: A capacidade de distinção.

Um doutor, ou uma pessoa que domina o pensamento, só pode ser como tal, se conseguir obviamente saber distinguir as coisas, não gerar confusões, saber concluir, aplicar a dialética e alcançar a verdade por meio de adequada relação entre os fatos e as coisas.

O sistema de lógica é assim, saber definir, dentro dos critérios, as coisas, o que cada uma representa ou é na escala de discurso. Saber conceituar. Saber bem definir. Saber estruturar. Os que entram em contradição não têm este grau, os ideologistas também não, os sofistas também, e todo aquele que não faz juz ao papel que lhe deu o suposto título, pois, sua representação não condiz com a sua posição científica.

O professor Mario Ferreira dos Santos bem explicava em sua obra sobre a cosmovisão, que é mister que tenhamos, para manter a lógica do discurso e o nível mínimo de pensamento filosófico, a capacidade de diferenciar as coisas e logo, saber o que cada uma representa no seu lugar, na ordem do pensamento.

Exemplificando: um livro tem o seu lugar específico não apenas na conceituação, mas num espaço, e num tempo. O que é um livro? Qual é a sua cor? O seu assunto? Onde ele está? Quando foi escrito? De que temas discute? E o que ele objetiva? O que conclui? Estas perguntas são fundamentais para argumentar e para bem dispor o que é uma coisa no seu ambiente geral, e qual é a sua situação perante as outras coisas.

Aristóteles começa o seu “Organon” falando claramente que a lógica depende não da estrutura que ela tem em si, mas de como as coisas podem ser pensadas nesta estrutura através do idioma. Assim, um cavalo não deixa de ser cavalo em nenhum idioma, as formas de se dizer cavalo mudam na cifra, todavia, em essência é o mesmo animal, agora se fossemos falar cavalo confundindo-o com um asno, ou um burro, teríamos um defeito claro de raciocínio, porque estamos misturando objetos diferenciados. Trocar objetos com palavras diferentes é defeito claro de raciocínio.

Esta mesma posição de classificação, foi muito bem estruturada pela lógica de Lúlio, ele faz muito bem, quando cria a sua Arts (arte), fazendo-nos perceber que por meios de perguntas gerais, num esquema montado, conseguimos saber o que é cada coisa, e como podemos distingui-la, e defini-la, ou seja, determina-la dentro de termos precisos com o uso da palavra, sem trocas, e sem repetições. Isso é lógica.

Mas malograda todas estas definições brevemente por nós destacadas, é claro imaginarmos que hoje, a palavra Doutor está muito longe na prática das pessoas que a proferem, porque a principal função que vemos nos portadores de diplomas é destruir a distinção.

Então temos inúmeros exemplos, de trabalhos e teses que nos chegaram todos estes anos, algumas até estudamos brevemente, outras realmente fizemos uma crítica para os candidatos, e mesmo assim, os seus orientadores não respeitaram o nível da crítica, mantiveram seus pontos de vista errôneos, simplesmente porque estavam no “auge” de sua autoridade.

A verdadeira autoridade em ciência vem da razão, e não do diploma que a aparenta representar.

Pois bem, um dos erros fundamentais que encontramos é o defeito de raciocínio que troca um efeito, ou uma coisa, por outro efeito ou coisa que está distante da definição. Assim falamos o que seria o homem, e a pessoa diz que o homem é um fruto do meio. É realmente. Mas o homem não deixa de ser animal, e espírito juntos, uma pessoa, para depois ser fruto do meio. Logo, se confunde o que é, com algo que é de sua propriedade, ou de seu efeito distante.

Quando alguém conceitua longe, o que a coisa tinha que ser, perfaz então um defeito de raciocínio muito grave a chamada elipse.

Fonte: https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/matematica/o-que-e-elipse.htm

O grande gramático nacional João Ribeiro, desenhava as elipses como formas de se fugir do assunto, quando não se sabe distinguir, ou não se consegue bem conceituar.

As elipses tradicionalmente podem ser admitidas como figuras de linguagem, nos dicionários normais se desenham como se fossem “omissões de palavras que subentendem”, logo, há exemplos bons de elipses nas questões conotativas, vejamos alguns:

“O filho da nação brasileira é o mesmo filho de Adão do longínquo africano”

“O português atual nasce na mesma região de São Tiago de Compostela”

“O ativo é o resultado final do conjunto de aplicações provindas do passivo”

 

São casos que não se figuram como erros necessariamente, todavia, como formas de se dizer, pois, a elipse é um tipo de “salto”, como se fizesse uma “curva”, por isso, a colocação tradicional do dicionário como se fosse realmente “uma omissão de palavras que subentendem uma coisa ou uma conclusão”.

Logo, sabemos que o filho da nação brasileira não é filho do Adão diretamente, mas por gênero provém do primeiro homem, mas muito distante. A elipse tem que dar um salto. Não deixa de estar certo, mas de um modo imaginário, pois, não posso dizer que eu, ou você que somos filhos da nação brasileira, somos “o mesmo filho” do Adão, e ainda do Africano, até porque há controvérsias bíblicas e científicas sobre o assunto que não cabe a nós aprofundarmos agora.

O mesmo se daria para o português atual, ele não veio diretamente do proto-português, mas longe, depois de muitas fases, mormente, de modo simbólico, se coloca como se fosse, então, se junta algo muito longe com algo atual, próximo, aqui não deixa de estar em parte certo, mas sabemos que diretamente não há português atual de São Tiago de Compostela, mas a origem do Português vem de lá, é diferente. Portanto, de modo avaliativo e direto, a frase não fica verdadeira, por causa da relação de “salto”.

O ativo é o valor do capital investido. Não é o resultado das aplicações do passivo, a não ser de modo secundário, numa questão mais de processo, de acontecimento, e não necessariamente, por uma questão relação direta. A relação é pois secundária e juntada de modo errôneo. Se faz uma elipse. O ativo é o valor dos investimentos, que provem dos valores do passivo e patrimônio líquido numa ótica de dinâmica. Em verdade ele vem das qualidades de investimentos, e depois destes gerados pelos financiamentos, o que desenvolve claramente o seu valor embora possa vir de outros fenômenos, inclusive de todas as dimensões patrimoniais e dos próprios fenômenos da atividade.

Portanto, isso são elipses que não estão como posições totalmente errôneas, no modo a qual apresentamos, só que elas se mantém com relações que foram omitidas, fazendo um elo muitas vezes insustentável entre a predicação e o sujeito que se quer adjetivar.

A elipse em modo conotativo não se mantêm de modo lógico tradicional, mas extra lógico quando a sua posição é apenas imaginativa, ou conotativa, quando é tentada de ser relacionada com a posição real ou metódica da ciência ou da filosofia ela perde o seu valor.

Assim vamos exemplificar algumas por questões de ilustração provindas de teses e trabalhos acadêmicos que lemos:

“A pesquisa que realizamos, procurou por meio do sistemas x, desenvolver uma contabilidade que pudesse avaliar toda a vida demográfica”

“O objeto da contabilidade, sem dúvida, é a vida humana”

“O que destrói uma empresa é o livro de entradas e saídas de estoque”

“Por meio do sistema x, e da plataforma y, conseguimos perceber toda a movimentação do mercado acionário”

 

Vemos claramente que há elipses em todas as frases, o que revela em muitos casos relações insustentáveis, que geram um “salto”, uma distância entre um elemento e outro, que não podem se reunir da maneira a qual foram escritas.

Como, pois, a contabilidade pode estudar a vida demográfica, sendo que este não é o seu objeto? A pessoa “salta” o seu objeto, por meio de sistemas de informática, e cria uma “contabilidade” ou se diz criar – porque para fazer uma ciência desta natureza ter-se-ia que desenvolver uma série de elementos teóricos, com argumentação teorética, arrumação de leis e princípios, o que sem dúvida não foi feito –   para avaliar a vida demográfica? A pessoa “pula” e omite uma série de pontos fundamentais prejudicando, com isso, a forma de raciocínio. E o pensamento se torna torto, pois, confundir a vida do povo, e a metrização dos cartórios como contabilidade é falso, ainda se admitindo como se tivesse o caráter realista e metódico da ciência. Só se aceitando tal coisa num tipo de ilusão mental.

O mesmo se dá para a suposta tese da vida humana: a contabilidade pode melhorar a vida humana indiretamente, sobretudo, por meio do seu objeto, ou seja, com os esquemas definidos de sua gnosiologia, e de seus critérios científicos.  A ciência naturalmente tem relatividade no seu campo de visão que é parcial, um recorte da totalidade e da realidade concreta, e ela não pode com um objeto apenas dominar o todo. Muito menos a contabilidade pode estudar a vida humana. Senão a contabilidade não seria contabilidade, seria biologia, ou até mesmo um tipo de medicina…

Todavia, neste tipo de falha, a pessoa salta ou pula todas as condições científicas de nossa matéria, e estabelece a ela um objeto que não existe, que seria mais uma finalidade consequencial, das últimas, um objetivo longe, de efeito, ou uma consequência distante da sua gnose, aplicada ao objeto, do que necessariamente seu objetivo real, destruindo a afirmação pela distância da sua predicação, com o sujeito que se quer adjetivar que é a contabilidade.

Seria absurdo imaginar que um livro caixa, ou um livro de estoque destrói uma empresa. Ter-se-ia que provar que um lápis desaprova um aluno, ou que a cinta do seu pai veste-o. Sem necessariamente serem usados adequadamente, eles não representam nada. É o mesmo que dizer que bisturi opera sem médico, ou que uma pessoa morre por causa de um leito de hospital. O que é falso.

Além de outros erros de lógica, com relação à argumentação da coisa, temos o erro, de atribuir a um efeito processual, a um procedimento, toda a falência da empresa, sem se explicar em pormenores porque isso o seria, e quais elementos que eliminariam esta posição, ou seja, se cola algo com uma distância muito grande, o que não perfaz sem dúvida relação direta. O que destrói ou fale uma empresa é o mal uso da gestão, as condições mercadológicas (algumas mais outras menos), e a deficiência de sua gestão. Se o livro estoque é apresentado no ângulo de gestão que seja muito bem apresentada esta questão, pois, dizer que um livro causa a falência de uma empresa, é elíptico.

Por fim relacionar sistemas de informática para resolver todo o problema acionário, é errôneo também. O “todo” problema acionário tem que ter relação com três coisas diretamente: o número de ações no mercado, o valor do mercado e contábil de cada uma delas. Poder-se-ia criar um algoritmo ou modelo matemático para tentar avaliar isto, mas o valor das ações é muito empírico, ele é mais volátil que a água, ou que qualquer outro valor contábil. Neste sentido pular todas as relações abstratas da economia, da sociedade por ações, das condições sociais, políticas e humanas para atribuir esta relação direta do valor de mercado de uma ação, pode ser um intento mas não é uma relação direta, e sob os saltos, desconsiderando estas coisas, se coloca como se fosse elipse claríssima, porque não se tem um efeito bom a partir dessas condições de pulo. Seria muito melhor dizer que em suma temos uma possibilidade de mensuração a partir da produção desse sistema, e indireta, e não o contrário.

A elipse é um salto, é um pulo, é uma hipérbole muito mal feita, dependendo da relação que se quer extrair ou da predicação.